segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Esse tal "ano do rap"...

Colunista: Gilponês
Fonte: www.centralhiphop.com.br



Há exatos 16 anos, o grupo Sistema Negro, de Campinas, gravou a faixa "O poder da rima" (álbum Bem-vindos ao Inferno), em que o rapper Doctor X dizia: "1994 é o ano do rap". Desde então, quando uma virada de ano se aproxima, diversas pessoas têm repetido tal "previsão". Perdi a conta de quantas vezes ouvi que "o ano que vem será o ano do rap".

Parei para refletir: será que o tal "ano do rap" já chegou e passou despercebido ou será que ele ainda se mantém como uma eterna promessa - sem prazo definido para se cumprir? O que falta para que tenhamos realmente um "ano do rap", de forma indiscutível e incontestável? Aliás, como devemos interpretar o que viria a ser o "ano do rap"? E até que ponto o tal "ano do rap" pode ser interpretado como algo positivo para o próprio rap?

De fato, o cenário musical brasileiro, pautado na grande mídia à base de jabás e modismos tolos, sempre costuma ser marcado por "ondas" - que, depois da arrebentação, costumam trazer apenas mais lixo para a praia musical. Entre outros gêneros e subgêneros, já tivemos o ano da lambada, do sertanejo, do pagode, do axé, do forró universitário e do miami bass (que os desinformados, erroneamente, gostam de chamar de "funk"), entre outros que vêm e vão...

No geral, esses estilos musicais ganharam holofotes com formatos pasteurizados, artificiais e, na maioria dos casos, emburrecedores - "coincidentemente", patrocinados por gravadoras multinacionais. Afinal, a grande mídia não quer reverberar músicas que possuam conteúdo inteligente ou contestador, que mirem as entrelinhas da cultura, que questionem, critiquem, eduquem e instiguem a população a refletir sobre assuntos verdadeiramente pertinentes - papel que muitos nomes do rap ainda cumprem com propriedade.

Será que para termos o tal "ano do rap" ele precisará se modelar de acordo com as "regras" não escritas da grande mídia? Será que vale a pena fazermos qualquer coisa para que o "ano do rap" finalmente se concretize? Será válido esvaziarmos os ideais do rap para que ele seja aceito comercialmente - por exemplo, ao gravar canções que usam o ritmo do rap com letras "rebolativas" que se encaixariam perfeitamente na axé music? Isso não derrubaria o propósito da essência do rap, de questionar os modelos culturais vigentes e manter seu discurso contestador/reeducativo?

Particularmente, não faço nenhuma questão de ver o tal "ano do rap" chegar. Considero isto algo bastante limitador para um gênero musical que já vem transpondo gerações, mesmo que de forma "silenciosa" - vejo mais importância na proliferação do rap pelo anonimato dos flancos periféricos do que pelos palcos do Faustão ou do Gugu, por exemplo. Ao invés de um simples e breve "ano", prefiro que tenhamos décadas, quiçá séculos, do rap - aliás, do HIP-HOP, para ser mais justo e preciso! Assim como até hoje ouço muito soul e funk (de raiz) dos anos de 1960 e 1970, espero que os jovens das décadas de 2080, 2100, 2200, 2500 ouçam muito rap verdadeiro feito no final do século XX e início do século XXI.

Se o conceito de "ano do rap" se refere apenas ao profissionalismo da cena, com a autogestão funcionando de forma plena, gerando empregos e fazendo o dinheiro circular entre os verdadeiros protagonistas do rap, então sou a favor de que esse "ano do rap" chegue logo. Mas não creio que o rap consiga mover milhões (de pessoas ou de R$), como o pagode ou o sertanejo, sem se corromper, sem ter de moldar sua forma e amenizar seu conteúdo para agradar os barões da grande mídia. Diante disso, o que fazer: manter-se independente, mas fiel a seus valores, ou seguir certos padrões (como adotar fúteis letras de axé music) para ganhar espaço nos principais veículos de comunicação?

Em tempo: o equilíbrio é possível. Entre o engajamento e a prostituição ideológica, existe uma opção, um caminho. GOG, por exemplo, é um ótimo exemplo de MC que nunca precisou mudar de postura ou discurso para conquistar respeito com sua música. Ele já provou que é possível sustentar sua família com dignidade, incentivar novos nomes do rap e gerar empregos sem precisar "pegar leve" nas letras ou gravar sons "rebolativos" demais e reflexivos de menos. GOG pode não estar milionário como o 50 Cent ou o Zezé di Camargo, mas com certeza não tem de que se envergonhar pelo que expressa em suas músicas ou pelo que faz nos bastidores. E é referência para muitos MCs das novas gerações.

Seja o "ano do rap" ou não, que venha 2011! Desejo muita LUZ a todos que ainda têm um propósito sincero no hip-hop, que preferem trabalhar mais e futricar menos, que tentam somar e multiplicar ao invés de subtrair e dividir. Um ótimo ano aos agentes culturais que ainda defendem os verdadeiros valores do rap, que não conjuminam com "rebolations" sem propósito e que não trocam seus ideais por 15 minutos de fama. Felizmente, 2010 foi um ano bastante produtivo neste sentido, o que nos traz uma boa dose de otimismo para este novo ano, seja ele chamado de "ano do rap" ou não. E que as perspectivas positivas se perpetuem para todos nós! Muita PAZ a todos/as!!!

Um comentário:

  1. Sinceramente o ano do rap é pra quem curte msm mais interesante o ponto de ? quando sera esse ano ? pra quem curte o veradeiro rap td ano é ano do rap não importa se ta na grande midia! mais uma coisa eu digo enquanto continuar a zé povinhagem na cultura neguim ao invez de fz o proprio corre fica falando desce ou daquele disco lançando ! o rap vai continua ai pagando de mal sem musicalidade sem porra nenhuma!!! so pose e mais nada! a pergunta é quantas radios conquistamos desde 94? quantas lojas temos no bang quantas revistas do genero? com milhares de grupos de rap so temos uma radio !! e msm assim muitos a criticam! cade os linha de frente do rap q não se juntam pra terem uma radio oficil? ou seja so criticar a atual nao ajuda em nada!!
    amo o rap nacional desde o primeiro contato em 89! mais ainda me intristeço com a falta de união no bang!
    #desabafo
    de um fã do verdadeiro rap nacional !!!

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